Algo mais?
No momento, estou sob a sombra da árvore mais frondosa e bonita
que pude avistar. Estou perdida nesta mata faz mais de três meses e esta árvore
é meu ponto fixo, para não me perder mais do que eu já estou perdida. Dá para
avistar esta arvore de qualquer ponto alto desta floresta.
Perdi-me quando minha equipe de estudos de mais de cinqüenta
pessoas, veio até aqui para investigar uma pandemia entre uma espécie de
primatas que já estavam em extinção. O que não esperávamos é que este vírus nos
contagiasse também. O vírus é tão forte, que nem as nossas roupas conseguiram
impedir que ficássemos infectados.
Após evacuar a população local, começamos nossos estudos. Na amostra de sangue que retiramos de um primata, observamos que o vírus se
multiplicava muito depressa. Dos habitantes locais, haviam 15 infectados. Da
nossa equipe, oito já jaziam mortos. Seis com o vírus. Nossa necessidade agora
era achar a cura. Empenhamos-nos a isso. Mas as respostas não apareciam, os
testes não funcionavam. Começamos a entrar em desespero e a lembrança de nossas
famílias tão distantes começava a nos perturbar.
Enquanto o tempo passava, mais vinte da equipe tinham morrido e
cinco estavam doentes. Sobravam seis dos habitantes dali. Já quase desistindo,
um menino usando roupas estranhas chegou ao nosso território. Perguntamos seu
nome, mas não respondeu. Demos papel e caneta a ele, mas olhou os objetos com
espanto. Concluímos que era analfabeto. Demos comida e bebida a ele. Já
anoitecia e fomos descansar.
Quase de manhã este menino me acordou me levou à porta e disse:

-Lá, naquela planície, há uma frondosa árvore, maior que todas
dessa mata. Você encontrará perto de sua raiz uma erva que irá curar todos os
seus amigos. Mas o caminho até lá é longo e perigoso. Há muitas regras e jeitos
para se chegar lá, mas só há tempo de lhe explicar a mais importante: NUNCA
arranque só as folhas da erva. Tem quem cortá-la pela raiz, se não sua magia de
cura acabará.
E se foi, deixando um mistério no ar.
Contei aos meus colegas que, igual a mim, ficaram com o pé atrás.
Mas era o único jeito. A mim foi confiada a tarefa de encontrar a erva,
enquanto tentava achar a cura.
Fui à procura desse remédio milagroso no mesmo dia, com mais dois
colegas. De início, um morreu atolado num percurso com areia movediça. Depois
de pegar a erva, eu contraí o vírus e com isso, testamos a planta. Era
impressionante seu poder de cura. Já passara um dia e meio desde nossa partida
e retornamos nossa caminhada. Aquela passagem era traiçoeira, mas conseguimos
chegar ao território. Mas já era tarde. Em dois dias, todos haviam morrido. Eu
e meu colega enterramos todos, pegamos boa parte de nossos equipamentos e
tomamos o caminho de volta a esta árvore, que fica perto de um alto monte onde
pedimos socorro todos os dias.
O sol se põe bem adiante e nem sei por que escrevo isso aqui.
Diário de Bordo, talvez. O que me intriga é aquele menino estranho que me vem a
memória a toda hora. Queria saber quem ele era. Onde está. E porque nos ajudou.
(Cora Leopoldina)