domingo, 15 de abril de 2012


Algo mais?

No momento, estou sob a sombra da árvore mais frondosa e bonita que pude avistar. Estou perdida nesta mata faz mais de três meses e esta árvore é meu ponto fixo, para não me perder mais do que eu já estou perdida. Dá para avistar esta arvore de qualquer ponto alto desta floresta.
Perdi-me quando minha equipe de estudos de mais de cinqüenta pessoas, veio até aqui para investigar uma pandemia entre uma espécie de primatas que já estavam em extinção. O que não esperávamos é que este vírus nos contagiasse também. O vírus é tão forte, que nem as nossas roupas conseguiram impedir que ficássemos infectados.
Após evacuar a população local, começamos nossos estudos. Na amostra de sangue que retiramos de um primata, observamos que o vírus se multiplicava muito depressa. Dos habitantes locais, haviam 15 infectados. Da nossa equipe, oito já jaziam mortos. Seis com o vírus. Nossa necessidade agora era achar a cura. Empenhamos-nos a isso. Mas as respostas não apareciam, os testes não funcionavam. Começamos a entrar em desespero e a lembrança de nossas famílias tão distantes começava a nos perturbar.
Enquanto o tempo passava, mais vinte da equipe tinham morrido e cinco estavam doentes. Sobravam seis dos habitantes dali. Já quase desistindo, um menino usando roupas estranhas chegou ao nosso território. Perguntamos seu nome, mas não respondeu. Demos papel e caneta a ele, mas olhou os objetos com espanto. Concluímos que era analfabeto. Demos comida e bebida a ele. Já anoitecia e fomos descansar.
Quase de manhã este menino me acordou me levou à porta e disse:
-Lá, naquela planície, há uma frondosa árvore, maior que todas dessa mata. Você encontrará perto de sua raiz uma erva que irá curar todos os seus amigos. Mas o caminho até lá é longo e perigoso. Há muitas regras e jeitos para se chegar lá, mas só há tempo de lhe explicar a mais importante: NUNCA arranque só as folhas da erva. Tem quem cortá-la pela raiz, se não sua magia de cura acabará.
E se foi, deixando um mistério no ar.
Contei aos meus colegas que, igual a mim, ficaram com o pé atrás. Mas era o único jeito. A mim foi confiada a tarefa de encontrar a erva, enquanto tentava achar a cura.
Fui à procura desse remédio milagroso no mesmo dia, com mais dois colegas. De início, um morreu atolado num percurso com areia movediça. Depois de pegar a erva, eu contraí o vírus e com isso, testamos a planta. Era impressionante seu poder de cura. Já passara um dia e meio desde nossa partida e retornamos nossa caminhada. Aquela passagem era traiçoeira, mas conseguimos chegar ao território. Mas já era tarde. Em dois dias, todos haviam morrido. Eu e meu colega enterramos todos, pegamos boa parte de nossos equipamentos e tomamos o caminho de volta a esta árvore, que fica perto de um alto monte onde pedimos socorro todos os dias.
O sol se põe bem adiante e nem sei por que escrevo isso aqui. Diário de Bordo, talvez. O que me intriga é aquele menino estranho que me vem a memória a toda hora. Queria saber quem ele era. Onde está. E porque nos ajudou.
(Cora Leopoldina)

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