sexta-feira, 27 de abril de 2012

A paisagem já me lembrava inverno e o vento oriundo do infinito trazia palavras de Sócrates em meu ouvido. O clima morto e gélido adocicava as minhas lembranças profundas.A morte de tudo esbanjava vida em meu olhar.
(Cora Leopoldina)

terça-feira, 24 de abril de 2012


Quero ter raiva das pessoas infantis

Mas acabo tendo raiva de mim mesmo
Quero fugir dessa situação
Mas quanto mais o tempo passa
Mais eu me enrolo nessa teia
Essa teia imensa que me prende
E que me obriga a tentar sair
Sem o menor sucesso
Sem  a menor chance
Sem se quer uma ajuda de caridade
Sem se ter o direito
Da minha livre desde nascença,
Liberdade.
(Cora Leopoldina)

quinta-feira, 19 de abril de 2012


Busco uma perfeição só existente em mim. Todas aquelas capas com aqueles títulos brilhantes que já passaram em minha vida, nada mais são que livros nunca lidos profundamente. E às vezes, me arrependo vendo todas as oportunidades que tive de conhecer novas histórias, mas não. Preferi dar às costas as capas mal acabadas, aos títulos sem inspiração. E os que eu julgava “passáveis”, muitas vezes, só me decepcionavam.
O grande fato é que eu nunca parei pra perceber detalhes em nenhum.Por apenas não manterem o padrão de qualidade de ser “eu”. Por não apresentarem uma boa capa. E também, talvez, por todos eles não terem gostado dos meus títulos, das minhas capas, dos meus tantos jeitos de ser.
(Cora Leopoldina)

 Prendi-me tanto as palavras que quando elas pararam de aparecer, já não mais me reconhecia. Comecei a ver o quanto era só. O quanto não me abria, o quanto era só eu. Por mais que quisesse, não conseguia me abrir para outros, e quando me abria, só decepções... Perdida estou agora, esperando a volta das palavras, a volta de todos os meus eu’s inconscientes. Eles sim me fazem feliz.
(Cora Leopoldina)

Foi tão rápido quanto uma rajada de vento. Apenas uma palavra conseguiu derrubar todo o muro formado por nossa amizade. E em cima dos destroços, uma fortaleza de indiferença começava a surgir, no meio de nós. Doía, mas ninguém parecia se abater. Ninguém parecia ceder, deixando o clima pesado se espalhar ainda mais em nossa convivência. As conversas daí em diante só se tratavam de oposição de idéias, enquanto antes da discórdia tudo parecia em mais perfeita harmonia. Todos os sentimentos morriam junto com o silêncio mútuo que crescia, e as brincadeiras ingênuas pareciam nunca ter existido. Tudo morria na nossa curta e boa amizade, e apesar da dor se espalhando em mim, você nem parecia se importar.
(Cora leopoldina)

segunda-feira, 16 de abril de 2012


Naquela manhã, eu perambulava por todos os cantos da cidade. Minha cabeça girava. O suor corria em minha face. Dúvidas, medo, angústia, tudo isso transcorria em meu rosto...
“Quem sou...Onde moro...Minha cabeça...Que confusão..”
O mundo nos olhos, totalmente abstrato. Corro.Corro o mais que posso. Tento me esconder e corro. Eles estão em todos os lugares.
(Cora Leopoldina)

Quero ter raiva das pessoas infantis
Mas acabo tendo raiva de mim mesmo
Quero fugir dessa situação
Mas quanto mais o tempo passa
Mais eu me enrolo nessa teia
Essa teia imensa que me prende
E que me obriga a tentar sair
Sem o menor sucesso
Sem  a menor chance
Sem se quer uma ajuda de caridade
Sem se ter o direito
Da minha livre desde nascença,
Liberdade.
(Cora Leopoldina)

domingo, 15 de abril de 2012


Algo mais?

No momento, estou sob a sombra da árvore mais frondosa e bonita que pude avistar. Estou perdida nesta mata faz mais de três meses e esta árvore é meu ponto fixo, para não me perder mais do que eu já estou perdida. Dá para avistar esta arvore de qualquer ponto alto desta floresta.
Perdi-me quando minha equipe de estudos de mais de cinqüenta pessoas, veio até aqui para investigar uma pandemia entre uma espécie de primatas que já estavam em extinção. O que não esperávamos é que este vírus nos contagiasse também. O vírus é tão forte, que nem as nossas roupas conseguiram impedir que ficássemos infectados.
Após evacuar a população local, começamos nossos estudos. Na amostra de sangue que retiramos de um primata, observamos que o vírus se multiplicava muito depressa. Dos habitantes locais, haviam 15 infectados. Da nossa equipe, oito já jaziam mortos. Seis com o vírus. Nossa necessidade agora era achar a cura. Empenhamos-nos a isso. Mas as respostas não apareciam, os testes não funcionavam. Começamos a entrar em desespero e a lembrança de nossas famílias tão distantes começava a nos perturbar.
Enquanto o tempo passava, mais vinte da equipe tinham morrido e cinco estavam doentes. Sobravam seis dos habitantes dali. Já quase desistindo, um menino usando roupas estranhas chegou ao nosso território. Perguntamos seu nome, mas não respondeu. Demos papel e caneta a ele, mas olhou os objetos com espanto. Concluímos que era analfabeto. Demos comida e bebida a ele. Já anoitecia e fomos descansar.
Quase de manhã este menino me acordou me levou à porta e disse:
-Lá, naquela planície, há uma frondosa árvore, maior que todas dessa mata. Você encontrará perto de sua raiz uma erva que irá curar todos os seus amigos. Mas o caminho até lá é longo e perigoso. Há muitas regras e jeitos para se chegar lá, mas só há tempo de lhe explicar a mais importante: NUNCA arranque só as folhas da erva. Tem quem cortá-la pela raiz, se não sua magia de cura acabará.
E se foi, deixando um mistério no ar.
Contei aos meus colegas que, igual a mim, ficaram com o pé atrás. Mas era o único jeito. A mim foi confiada a tarefa de encontrar a erva, enquanto tentava achar a cura.
Fui à procura desse remédio milagroso no mesmo dia, com mais dois colegas. De início, um morreu atolado num percurso com areia movediça. Depois de pegar a erva, eu contraí o vírus e com isso, testamos a planta. Era impressionante seu poder de cura. Já passara um dia e meio desde nossa partida e retornamos nossa caminhada. Aquela passagem era traiçoeira, mas conseguimos chegar ao território. Mas já era tarde. Em dois dias, todos haviam morrido. Eu e meu colega enterramos todos, pegamos boa parte de nossos equipamentos e tomamos o caminho de volta a esta árvore, que fica perto de um alto monte onde pedimos socorro todos os dias.
O sol se põe bem adiante e nem sei por que escrevo isso aqui. Diário de Bordo, talvez. O que me intriga é aquele menino estranho que me vem a memória a toda hora. Queria saber quem ele era. Onde está. E porque nos ajudou.
(Cora Leopoldina)

Em um mundo de panacas eu sou uma panaca e meia tentando entender o que se passa. Tentando ler as realidades e transpô-las em fotos, letras, seja o que for. Tentando e não conseguindo, o que eu não sei se me torna uma panaca ainda maior. As únicas realidades que consigo descrever bem são as minhas. O único mundo que consigo dominar é o meu. Por isso não se assustem com meu jeito de ficar só. Gosto do meu mundo. E até hoje, ninguém ao certo conseguiu dar muito certo com ele e nem eu consegui dar muito certo com mundos alheios. Fico bem no meu. A única tristeza é ter que todos os dias, acordar no meu universo multicor, e sair dele para enfrentar o velho mundo de velhos panacas cinzas.
(Cora Leopoldina)

É estranho como as músicas exercem influencias sobre mim. Como agora, aqui sentada nesse computador, tentando arrancar palavras do emaranhado de idéias que cercam a minha cabeça. Se coloco uma música agitada demais, nem a idéia mais espevitada repousa no papel. Não sei ao certo se essas  idéias habitam meus pensamentos. Se habitam, estão escondidas, esperando o momento certo para sair. Não são como aquelas reflexivas e muitas vezes monótonas que pendem sobre as realidades como estalactites prontas a desabar. Essas sim, me visitam freqüentemente trazendo verdades que nem eu sei ao certo como interpretar.
                                                                                      (Cora Leopoldina)

sexta-feira, 13 de abril de 2012


O barulho dos passos na calçada
Ecoa nas paredes velhas e ocas
De alguns barracões aqui e ali perdidos
No meio de altos prédios
Que nada ouvem e nada falam
E principalmente não observam
O barulho dos passos da moça bonita
Que passa ali agora
Enfeitada num laço de fita
E que nesse momento olha pra mim

Eu, um simples caderno
(Cora Leopoldina)

quinta-feira, 12 de abril de 2012



Seus olhos me liam tão profundamente que nem eu sei ao certo o que tinha para ser lido. De certa forma, aquilo me constrangia. Tinha medo que até meus maiores erros, meus maiores medos, coisas que nem eu sabia que existiam tivessem transparecendo e me entregando ao seu olhar. Meus olhos junto aos seus, depois de muito tempo, tinham me dado a impressão que você sabia coisas minhas que até eu não sabia. Um misto de admiração e recusa se apossava de mim: seu jeito analisador, seu olhar era fascinante. O problema é que eu era a analisada. O problema era eu não conseguir te analisar.
(Cora Leopoldina)

As palavras vem avassaladoras em minha cabeça, mas quando eu abro essa página, olho o fundo branco, tudo se esvai e uma grande solidão se apossa de mim. E quando coloco minhas mãos a trabalhar, uma vez ou outra, as idéias começam a vir como foguetes prestes a disparar sob o  céu obscuro de um ano novo que vem vindo. E nessas horas, me imagino flutuando em águas frescas, olhando o luar puro, contemplando a roseira florescer... Mas não. Isso tudo dura pouco, pois logo vem o fim. Fins tão secos e inacabados, e depois, mais nada.
(Cora Leopoldina)

Aquela paisagem me lembrava àqueles outonos de cidadezinhas do interior, de clima europeu. Não que eu já tivesse ido à Europa, mas me lembrava bastante. O clima frio, mas gostoso. As folhas secas, e entre elas aquele fio dourado de sol. Aquele que coloca preguiça e melancolia em tudo que toca. Mas era feliz. Aquele momento era feliz. Eu andava junto com a brisa, junto com as folhas que caíam. A música de fundo era o silêncio, o silêncio mais harmônico que já ouvira. Parecia que o mundo tinha parado para escutá-lo. Para sentir o momento.             
A Lua esperava arduamente ver mais uma vez o sol.   As folhas almejavam voar junto à brisa, ao léu. O casal de passarinhos esperavam com esperança o nascer de seus filhotes. E eu, ali parada, só esperava você.     
(Cora Leopoldina) 

As vezes me deparo em um mundo de espelhos. E neles, vejo todas as minhas fraquezas. E nessas horas, uma imensa vontade de chorar. Choro por dentro para compensar. Choro nas palavras e nos papéis. Choro nos livros, que tanto absorvem meus sentimentos, e me sinto bem. Mas quando o mundo de espelhos vem à tona, me sinto desabar novamente. Como se estivesse nua, exposta, frágil. O corpo não se deixa abater. Continua forte, de pé. Mas a alma... A alma é frágil. Isso faz doer no meu reflexo cru nos espelhos. Isso faz doer em mim.
(Cora Leopoldina)

Era preciso um lugar para expor meus sentimentos. Não que eu goste de exposição, mas sentia que iria explodir se não compartilhasse com alguém. O difícil é esse compartilhar, porque quando estou expondo minhas palavras, estou me expondo junto, pois sem querer, tudo que escrevo diz respeito a coisas minhas que nem eu tenho consciência que existem. Às vezes críticas do mundo em que vivo, ás vezes só sonhos distantes no papel. Ideias de mais poesia nesse vasto oceano de ilusões. Ilusões essas que a cada dia me parecem aumentar mais e mais, como se gotas fossem aparecendo misteriosamente e se adicionando aquela imensidão, que vai engolindo sorrateiramente os resquícios de um pouco que seja de realismo. E eu, vou tentando delas me esquivar... Mas uma vez ou outra, bate aquela fraqueza, e eu acabo mergulhando nesse oceano profundo. E vem também minha poesia aqui gravada,descrevendo minhas ilusões,minhas fraquezas e medos. A poesia vai me despindo, denunciando como o olhar.Olhos e palavras até me parecem almas gêmeas,que dividem a mesma alma e função: Ler e ser lidos. E é por isso que aqui,minhas palavras absorvem seus sentimentos e seus olhos acariciam os meus.