O despropósito tomava conta da minha cabeça e naquele finalzinho
de tarde, eu andava a esmo, sem saber nem o que pensar. As ruas frias com todas
aquelas placas e cartazes não estavam ajudando em nada, mas parecia ser mais
confortável estar ali do que em qualquer outro lugar. Ali ninguém parecia me
notar,e era daquilo que eu precisava: Não ser notada. Queria poder ser
totalmente livre naquele lugar e dizer como eram hipócritas todas as suas
atitudes e como me revoltava essa hipocrisia que começava a me engolir com o
ganho da maturidade. Era uma droga que consumia toda a humanidade e que ninguém
parecia sentir. Tratavam e tratam como se fosse normal, como se fosse um
remédio homeopático contra os sofrimentos fúteis de todos. Como se esses
sofrimentos não fossem causados justamente por essa falsidade estampada nas
grifes, nos carros, na disputa de quem tem mais, quem pode mais. É tudo muito
sujo e continua ainda mais... E eu naquele momento, queria ser avessa aquilo,
para que minha alergia da alma não resolvesse expelir por meus poros em forma
de duras palavras sobre essa sociedade.
(Cora Leopoldina)

